Inspirações,Por aí, por Alice

Marc Chagall

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Eu toda envergonhada diante da obra “Paris vista da janela” de 1913, no museu Guggenheim.

Quando meus alunos me perguntam qual é meu artista preferido, nunca digo apenas um nome, pois existem quatro que me inspiram e possuem toda a minha admiração: Frida Kahlo, Marc Chagall, Van Gogh e Amadeo Modigliani. Fiquei refletindo no que os quatro possuem em comum, apesar de cada um ter seu estilo próprio. Acredito que o encantamento pelo trabalho deles transita em dois setores da minha alma: a vida particular e o modo como eles a transformaram em arte e sonho.

Pretendo falar sobre cada um deles aqui no blog, não num sentido técnico e analítico, mas numa perspectiva emotiva. E para começar, Marc Chagall, o artista russo que pintou seus sonhos infantis e o modo como enxergava sua aldeia russa, Vitebsk. Essa forma de registrar o mundo como é visto e sentido, sem os pudores do que era aceito ou não no mundo da arte naquela época, é o que mais me encanta nele. Existia uma verdade, forte e carregada de tons suaves, leve e cantante como os animais e namorados que aparecem voando pelo céu da sua pequena e amada aldeia.

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Sobre a cidade, 1914-18

Marc Chagall gostava de subir no telhado de sua humilde casa quando anoitecia e ali se entregava ao deleite de observar, com o filtro da beleza dos seus sonhos, a realidade da qual fazia parte. E tudo era lindo, colorido ao seu modo, suave como a brisa e delicado como o frio que sentia em sua pele. Quando cresceu, batalhou para ser artista e decidiu ir à Paris, até que seu trabalho ganhou o mundo. Muitos classificam-no como surrealista, mas sinceramente não sei se ele se atribuía esse título, uma vez que ele pintava apenas o que sentia.

No-campo-À-la-campagne_Chagall_MG_0568-foto-Henrique-LuzNo campo, 1925

Marc Chagall era romântico. Apaixonado por Bella, disse para que a esperasse e não o esquecesse enquanto fosse à Paris, pois voltaria para casar-se com ela. Bella foi sua musa inspiradora e mesmo após a morte da amada e um longo período de depressão causada pela saudade, em que não produziu nenhuma pintura, Bella continuou aparecendo em suas artes. Não é lindo? Ou eu que sou romântica demais?! Hahaha

Ao lado da obra “Eu e a aldeia” no MoMa, em NY

Chegar até o MoMa sozinha nesse dia foi uma saga, entre encontrar o local certo e me comunicar em inglês! Mas ao entrar no museu, corri para a parte onde encontraria as obras dos meus artistas preferidos. Chorei ao ver Noite Estrelada de Van Gogh e quase explodi de encantamento quando vi esse quadro maravilhoso de Chagall. Entre o inglês cheio de sotaque e a felicidade, disse a uma turista asiática “Can you take a picture, please?” E aí está o registro de um dos momentos mais felizes da minha vida.

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Em 2008 comprei esse livro num congresso que participei pela faculdade. As ilustrações de Bimba Landmann são encantadoras e traduzem toda a sutileza da arte de Chagall. Com simplicidade e graça, a escritora e ilustradora conta a história desse grande artista, desde a infância aos últimos dias. E por falar em ilustrações de livros, Marc Chagall ilustrou as fábulas de La Fontaine e eu já estou louca querendo comprar um livro desse pra mim. Será que encontro com facilidade?

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No Guggenheim, em julho/2017

Entre a neve úmida e gelada, o vento no rosto e as cores que seus olhos viam, Marc Chagall pintou suas origens, a simplicidade das pessoas, a alma dos animais e o céu noturno cheio de poesia que ele enxergava sentado no telhado. São poucas as pessoas que encaram a vida com leveza e que ainda conseguem mostrar o belo naquilo que é trivial e cinza aos olhos apressados e rotineiros. É isso que eu admiro em sua obra: a sensibilidade diante daquilo que muitas vezes é comum. Ou, como dizia Antoine de Saint-Exupéry “Só se vê bem com o coração”.

<3

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